A cidade de Franca, localizada no interior do Estado de São Paulo, é considerada a capital nacional do basquetebol masculino. Tal caracterização é justificada por sua tradição na prática e incentivo a este esporte que perdura desde o ano de 1913, quando o professor David Carneiro Ewbank fundou o Clube Atlético Franca, que em 1918 encerrou suas atividades. No final da década de 20 a prática do basquetebol é incentivada nas aulas de Educação Física da Escola Francana de Cultura Física com intuito de formar uma mocidade forte e útil à sociedade, seguindo o lema "mens sano in corpore sano" (BEDÔ, 1996).
O basquetebol francano foi primeiramente incentivado por José Cyrilo Goulart, que se tornou o primeiro treinador, mas que não apresentava formação técnica especializada. E em seguida houve a intervenção do ex-atleta e campeão paulista de cestobol, Oscar Paulito, que ensinou novas técnicas (BEDÔ, 1996).
No início da década de 30 foi fundada a Liga Francana de bola ao Cesto por José Cyrilo e Alfredo Henrique Costa. E no ano de 1931 realizou-se o primeiro campeonato de basquetebol de Franca, na qual o C. A. Rio Branco foi vitorioso (BEDÔ, 1996).
O depoente Sérgio Aleixo de Paula relata que:
"(...) o primeiro campeonato foi disputado pelas seguintes equipes: Clube Athlético Rio Branco, Associação Athlética Chevrolet, Associação Athlética Escola Profissional, Associação Athlética Francana, foi campeão o Clube Athlético Rio Branco".
Em 1936, aconteceram os primeiros Jogos Abertos do Interior, realizados na cidade de Monte Alto com a iniciativa de Baby Barioni, na qual aconteceu apenas o torneio masculino, com a participação das cidades de Franca, Olímpia, Monte Alto e Uberlândia, na qual Franca ficou em 3º lugar (BEDÔ, 1996; DAIUTO, 1991).
Sérgio Aleixo de Paula diz que "em 1943 por intermédio do Professor Artur Ewbank, filho do Sr. David Ewbank, o bola ao cesto retoma uma injeção de ânimo e entusiasmo no Ginásio" que inicialmente chamava-se Ginásio Estadual de Franca, depois mudou para Escola Normal Dr. João Ribeiro Conrado, e finalmente para Instituto Estadual de Educação Torquato Caleiro, mais conhecido como I.E.E.T.C, ou depois I.E.T.C.
Em 1943, o professor Arthur Ewbank, filho do professor David Carneiro Ewbank, foi quem incentivou o basquetebol na escola Ginásio Estadual de Franca, hoje o I.E.E.T.C., o Instituto Estadual de Educação Torquato Caleiro.
Na década de 50, o professor de Educação Física Pedro Morila Fuentes, o "Pedroca", do colégio I.E.E.T.C. foi o grande incentivador do esporte. Pedroca, oriundo de São Paulo, formado em 51 na Universidade de São Paulo, tinha como especialidade o atletismo, porém logo se empolgou com o basquetebol tornando-se o maior incentivador da prática (OLIVEIRA, 1995).
Sérgio Aleixo de Paula relata que no dia 4 de setembro de 1953 foi fundado, por pais de alunos e antigos jogadores, o Clube dos Bagres, pois a cidade não comportava mais a realização dos seus jogos no I.E.E.T.C. e
"com o passar do tempo esse clube tornou-se um Oásis aos desportistas de Franca; tornou-se uma espetacular academia de basquetebol, orientada pelo Prof. Pedroca, tendo a princípio a retaguarda de Ademar Rodrigues Alves, José de Alcântara Vilhena (o Juca), Paulo Archeti e sucessivamente os demais presidentes até 1971".
Em 1959, aconteceu o primeiro campeonato oficial do Estado, o Troféu Bandeirantes, criado pelo Governo Estadual, e que foi realizado na cidade de Presidente Prudente-SP, na qual Franca foi representada pelo I.E.E.T.C., obtendo o 3º lugar. Sérgio Aleixo de Paula afirma que "(...)O primeiro sucesso em um certame oficial, foi em Presidente Prudente com um honroso 3º lugar".
A partir de 1961, o Clube dos Bagres foi registrado na Federação Paulista de Basquetebol, e passou a ser o representante francano nos campeonatos estaduais, onde deu início a trajetória de títulos. Sérgio Aleixo de Paula tem registrado em seus arquivos que o Clube dos Bagres realizou 294 jogos, obteve 225 vitórias e 69 derrotas, conquistando 37 títulos de campeão, 9 de vice e um de 3º lugar. E diz que "em 1971 o Sr. Vitor de Andrade, presidente do Clube dos Bagres simplesmente acaba com o basquetebol do clube (...)".
O basquetebol francano passa, então, a ser patrocinado pela Indústria de Calçados Emmanuel, e a equipe passa a se chamar Emmanuel Franca Esporte Clube. A equipe disputou campeonatos nacionais e internacionais, registrando um total de 177 jogos, sendo 138 vitórias e 39 derrotas, conquistando 27 títulos de campeão, 14 de vice e 5 honrosos. Com a falência dos Calçados Emmanuel em 1974 a equipe passou a ser patrocinada pela Indústria Amazonas Produtos para Calçados, e passa a ser o Esporte Clube Amazonas Franca. A equipe foi reformulada e neste período conquistou campeonatos: brasileiro, sul-americano, paulista e um vice-campeonato mundial interclubes, em Vareze, na Itália (OLIVEIRA, 1995).
Segundo o depoimento de Sérgio Aleixo de Paula, em 1976, a Indústria Amazonas Produtos para Calçados encerrou seu patrocínio "em virtude de alguns dissabores políticos administrativos, a firma resolve encerrar o patrocínio do basquetebol". No entanto, foram registrados: 142 jogos, 125 vitórias, 17 derrotas, 35 vezes campeões, 8 como vice 8 e um 3º lugar.
Sérgio Aleixo de Paula diz que
"em 76 a 84, a fim de colaborar assume a equipe a Associação Atlética Francana, para não deixar o basquetebol de Franca sucumbir; um pouco enfraquecida mas com um coração de guerreiros, os títulos continuam a ser obtidos: Paulista, Brasileiros, Sul Americanos e mais um Vice Campeão Mundial Inter Clubes, em Sarajevo na Yugoslávia".
Em 1984, "surge uma crise administrativa e o esporte na A.A. Francana cai em decadência, e o basquetebol também sofre as conseqüências". Mas nos registros de Sérgio Aleixo de Paula constam 511 jogos, sendo 391 vitórias e 120 derrotas, conquistado um total de 47 títulos de campeão, 21 de vice, e 8 de 3º lugar.
No final da década de 80, outra equipe foi formada por alguns ex-jogadores veteranos do Ravelli, o Dharma Yara. Em dois anos a equipe saiu da série A-II e passou a ser uma força do basquetebol brasileiro, e dividiu a torcida da cidade entre as duas equipes constando de muitas provocações e intrigas, inclusive entre os diretores. Tal rivalidade se manteve até 1997, quando o patrocinador Dharma deixou a equipe do Yara, e esta se transferiu para a cidade de Ribeirão Preto, onde se tornou a equipe do COC. Durante esse período, o interesse e o incentivo do basquetebol na cidade fez com que fossem instaladas tabelas nas ruas da cidade para que os jovens praticassem o esporte. Este fato mostra que Franca é uma das poucas cidades que incentivam a iniciação no esporte, o trabalho de base (OLIVEIRA, 1995).
Sérgio Aleixo de Paula relata:
"a partir de 84 a 89 com a participação do Sr. Comendador Osvaldo Collesi e mais alguns abnegados, os de sempre que sempre colaboraram desde os tempos do Clube dos Bagres, nasce a Associação Francana de Basquetebol (A.F.B.) para continuar com a vibração do basquetebol de Franca. Muitos sacrifícios e muita perda monetária por parte do Sr, Collesi; procura-se patrocínio, surge a Pawer, depois a Scopus e posteriormente a Ravelli, essas firmas contribuíram precariamente para a manutenção do Basquetebol de Franca".
E a equipe passou a se chamar Ravelli Franca Basquetebol "(...) sob a direção de Agostinho Ferreira Sobrinho, equilibram-se as finanças com o co-patrocínio da Sabesp; a trajetória gloriosa do basquetebol de Franca parecia continuar, mesmo com alguns contratempos novos títulos continuaram a surgir (...)". Nesta época Hélio Rubens Garcia assumiu a equipe como técnico, pois Pedroca estava afastado por problemas de saúde. Até no ano de 91, registraram-se 642 jogos, sendo 515 vitórias e 127 derrotas, 89 títulos de campeão e 21 de vice.
De acordo com Oliveira (1995) e com os relatos de Sérgio Aleixo de Paula, no início da década de 90 a Ravelli entrou em conflito com os jogadores e o departamento de basquetebol. E em 1992 o clube se tornou independente, e surgiu o Franca Basquetebol Clube, que passou a incorporar a seu nome o de seus sucessivos patrocinadores: Sabesp, All Star, Satierf, Cosesp, Cougar, Gallus e Marathon que encerrou seu patrocínio em 8 de junho de 2001. Desde de janeiro de 1992 até julho de 2001, o clube registrou 841 jogos, sendo 597 vitórias e 244 derrotas, conquistou 26 títulos de campeão e 15 de vice.
Atualmente, o clube vem realizando campanhas junto às empresas da cidade para obtenção de recursos financeiros para manutenção da equipe. E em 2002 lançou a campanha adote um atleta, onde a empresa seria responsável pelo pagamento dos salários do atleta, e teria direito de expor sua marca nos uniformes de treino do mesmo. O clube propôs a câmara municipal de Franca no ano de 2002 uma lei que destinaria uma porcentagem da arrecadação de I.C.M.S. ao clube, proposta essa que foi votada no ano de 2002, e que geraria recursos suficientes para manutenção da equipe no esporte de alto nível, porém essa lei acabou não sendo aprovada pelos vereadores da cidade2.
Hoje, o clube conta com um patrocínio do Banco do Brasil, conseguindo por intermédio da prefeitura municipal de Franca no ano de 2003, porém esse patrocínio, mais as campanhas realizadas junto às empresas da cidade e o ingresso sócio-torcedor só é suficiente para manutenção de uma equipe adulta de nível médio, que é formada em sua maioria por atletas advindos das categorias de base.
Toda a dificuldade financeira que a equipe enfrenta, vem se refletindo no desempenho do time na Liga Nacional 2003-2004, o que provocou pela primeira vez na sua história a demissão de um técnico. O clube teve três treinadores da equipe principal, e agora passa a ser comandado pelo ex-jogador Marco Aurélio Pegoro dos Santos, o Chuí, que tem como responsabilidade recolocar o basquetebol francano entre os melhores do país, mantendo sua condição da cidade de capital do basquetebol.
Percebe-se que o basquetebol francano se desenvolve pelos esforços de amantes deste esporte que buscam mantê-lo como prática primordial na cidade como relata Jorge Guerra:
"(...) o basquete em Franca é o primeiro esporte e nas escolas nas ruas, socialmente falando, então todo garoto francano, toda criança francana é inicia no basquetebol, no futebol e outros, natação, atletismo, só que o basquete fala mais forte e eu tive talento pra continuar no basquete".
No período pesquisado, constata-se pelos relatos seguintes que o basquetebol francano saiu da condição de esporte amador e, hoje, apresenta características de "profissional", porém, com dificuldades no que se refere à patrocínios, fator imprescindível para manter as equipes:
"(...) já estava já bem profissional, hoje inclusive ja tá bem mais né, e o basquete hoje é um meio de vida, porque antigamente as pessoas jogavam a troco de bolsa de estudo ou do emprego com a área que você atuava, e hoje não, hoje a pessoa joga profissionalmente, se ele tive que fazer algum curso, alguma coisa, se tive um jogo ele tem que falta do curso pra ir pro jogo, e antigamente não, você balançava, tem dia que você não ia joga porque se tinha alguma prova, algum curso pra fazer, mas hoje atualmente não". (Fausto Gianechini)
"Patrocínio é sempre dificultoso. Nos dias de hoje temos dificuldades em conseguir patrocínio pelo elevado custo de uma equipe, e mais ainda quando o poder público não incentiva o esporte amador. (...) se não houver incentivo por parte do poder público, nosso esporte pode fracassar, porque é amador". (Antonio Celso do Carmo)
Nestas condições o esporte não oferece muitas opções aos atletas ao término de sua carreira e/ou enquanto atuante, como mostra o relato de Chuí sobre o basquetebol:
"Ele vive por momentos, né? A gente pode falar que economicamente ele não é um esporte de segurança, que você saiba com certeza que você vai ter emprego por dois ou três anos seguidos, porque muitos clubes abrem e fecham, é uma insegurança que está sempre presente, mas dentro da média dá pra você ter um padrão bom de vida, mais você não vai acabar de jogar e falar que não precisa mais jogar, você tem que se direcionar pra outro emprego, e realizar tudo que você fez no seu tempo de esportista no seu negocio, no comercio no que você for fazer depois".
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